Vou jantar com uma amiga. Um restaurante familiar, não um tasco, relativamente grande, muitas mesas. Ficamos encostadas a um canto para nos afastarmos um pouco da música ao vivo e podermos conversar mais tranquilamente. Ao nosso lado, um grupo de cerca de 30 pessoas. Vamos pedindo, funcionárias simpáticas, queridas. De repente, mesmo à minha frente, um tipo de 50 e muitos talvez sessentas passa a mão pela anca da empregada. Fico bloqueada. A minha amiga continua a falar comigo mas eu já deixei de ouvir. O corpo da rapariga contorce-se, recua instintivamente uns centímetros, foge, toda a linguagem corporal dela mostra que odiou aquilo. Explico à minha amiga o que aconteceu, preciso de ver se para. Ele continua a falar com ela enquanto lhe passa a mão pelo rabo, aperta-o. Fico nauseada.
“Vai parar com isso? Está-se a passar?” – aquilo sai-me, apetece-me esborrachá-lo.
“O quê?”
“Acha que eu não vi?”
“Ai, é a minha colega” – diz com ar ofendido.
“A sua colega, claramente, odiou”.
“Mas qual é o vosso problema?”.
O nosso problema é que somos mulheres, e que tu se calhar tens uma em casa, a passar-te a roupa a ferro, ou a ver a novela com a tua filha, enquanto tu vens espalhar o teu machismo tóxico por aí. Ah, espera, talvez a tua filha esteja num outro restaurante, a ser apalpada por outro velhaco qualquer, já pensaste nisso, idiota?
Começamos as duas a espingardar.
“Ainda não percebeste qual é o nosso problema? Se quiseres explicamos-te bem alto, para toda a gente ouvir!”
Virou-se para a frente, não voltou a olhar para nós, ficou sossegadinho o resto da noite. Talvez este pense duas vezes antes de voltar a tocar numa mulher que não lhe deu autorização.
Foi ontem. Portugal. 2022.



