A violência pós-conjugal acontece quando, depois da separação, uma das pessoas exerce cada um dos seus pequenos poderes para continuar a intrometer-se na vida da outra. A violência pós-conjugal acontece quando nada é facilitado, quando a comunicação é dificultada para causar constrangimentos, quando os horários não são cumpridos para desestabilizar a vida do outro, quando os adjetivos utilizados são sempre depreciativos ou insinuadores, quando os filhos são usados para exercer o pouco controle que ainda resta, quando os momentos importantes são manchados por “infelizes coincidências”, quando as regras têm dois pesos e duas medidas, quando existe uma manipulação subtil para prejudicar o outro. A violência pós-conjugal existe quando um dos elementos do ex-casal fica frustrado com a felicidade do outro, fica conscientemente ou inconscientemente satisfeito com a sua desgraça, vai depreciando a imagem do outro sempre que é possível, mas sempre de forma subtil, insidiosa, porque a violência pós-conjugal não é declarada, não precisa de pulseira eletrónica. Exerce-se baixinho, com sorrisos hipócritas e falsas promessas.
A violência pós-conjugal raramente vai parar ao tribunal, porque não se consegue provar, são uma série de pequenos eventos que, isolados, parecem fortuitos ou inócuos. Mas, todos juntos, criam um cenário. Criam um cenário de alienação parental, de vingança, de incómodo, de parentalidade tóxica e de filhos infelizes sem saberem porque o são, porque simplesmente sentem um dever de lealdade para com um progenitor que os utiliza – como arma de arremesso, como substitutos de conjugalidade ou como adultos que não deviam ser.
No Natal, a violência pós-conjugal encontra um terreno ainda mais fértil de mágoas e possibilidades.
Compram-se afetos, oferecem-se playstations e cachorros, fazem-se promessas falsas que hipotecam o futuro, negoceia-se amor em troca de exclusividade.
Este Natal, que tal pôr a busca pela felicidade à frente da infelicidade do outro?
Feliz ano novo.



